Esfrego os olhos enquanto leio a mensagem na tela do celular e tento me localizar no espaço-tempo. Cheguei de viagem no início da tarde, deixei as malas no corredor, tirei a roupa e me joguei na cama de qualquer jeito. Acordei com o gato me cobrando a hora do sachê com a casa toda escura. No celular, algumas dezenas de notificações com notícias de chegadas, saídas e fotos de recordação pareceram irrelevantes perto dessa mensagem que recebi dele, dizendo que está pensando em mim.
É quarta-feira de cinzas, à noite. Não sei que horas vou dormir de novo hoje porque estou a dias com o sono lindamente desregulado pelo carnaval. Diz-se quarta de cinzas porque é o dia de renascimento – que só restaram cinzas de nós depois de tanta correria é verdade, mas meu corpo ainda queima com as lembranças de tudo que fizemos durante os dias de festa. Enquanto ajeito as coisas, alimento o bichano e abro as malas, penso no moço amigo da mensagem e em tudo que rolou entre nós. Não que eu quisesse trazê-lo comigo, porque, além da minha experiência dizer que amor de carnaval não sobe serra, ele é um amigo distante, desses que a gente sente um amor de pica uma vez e fica nessas idas e vindas de pegação. Foi rápido como tinha que ser, e inesquecível. Depois de um banho e agora mais organizada, eu o respondo: