Confissões Deliciosas de uma Hotwife

A feira da indústria estava lotada. O som dos expositores, as conversas sobre tecnologia e mercado criavam uma mistura curiosa de formalidade e improviso. Rafael percorria os corredores com o crachá pendurado, observando produtos, ideias, rostos. Procurava as melhores oportunidades, até que um rosto, em particular, prendeu sua atenção.

Camila estava atrás de um balcão de vidro, falando com um cliente. O jeito como se movia, calmo, preciso, revelava uma segurança diferente, quase magnética, apesar de que todas as mulheres que trabalhavam no evento serem bonitas, Camila se destacou aos olhos de Rafael. Quando ela riu, o som pareceu atravessar o barulho ao redor. Reteve-se a porta do estande. Quando o cliente se afastou, Rafael se aproximou, curioso, fingindo interesse nos catálogos expostos.

— “Bom dia. Vocês são da área de consultoria industrial? — perguntou ele, mais para puxar conversa do que por real interesse.
— “Somos, sim”. — respondeu ela, sorrindo. — “Mas confesso que hoje o que menos fazemos é consultoria. É mais sobrevivência nesse mar de gente que só falta devorar a gente, como posso te ajudar?”.
Ele riu, e ela acompanhou, criando um clima leve, espontâneo. Conversaram sobre uma possível assessoria, sobre o evento, sobre como as pessoas fingem se interessar pelos stands só para descansar um pouco e se encherem de bugigangas chamadas de brindes. Camila tinha um humor afiado e uma maneira de olhar que fazia as pausas parecerem cheias de intenção.
— Você vem todo ano aqui? — ela perguntou, cruzando os braços e inclinando levemente o corpo para o balcão.
— Confesso que é a primeira vez. E você parece saber sobreviver bem aqui.

— “Digamos que aprendi a gostar das pessoas…, mas só das interessantes”.
A forma como ela disse isso o fez sorrir, mas também o deixou atento. Havia algo subentendido ali, uma brincadeira leve, mas carregada de sutileza.
Continuaram conversando por alguns minutos. Ele percebeu que, diferente das outras mulheres da feira, Camila não tentava impressionar, ela simplesmente era. E isso bastava.
Quando a conversa parecia terminar, ela olhou o relógio, e disse:
— “Tenho que ir numa palestra agora, mas… se ainda estiver por aqui mais tarde, passa de novo. Gosto de continuar boas conversas”.
Rafael assentiu, quase sem perceber o quanto aquela frase o atingira. Havia algo nela que ultrapassava a curiosidade profissional. Algo que ele ainda não sabia nomear, mas queria descobrir.

A tarde avançava e o movimento na feira começava a diminuir. Rafael caminhava entre os estandes sem pressa, fingindo interesse em painéis e catálogos, brindes e buffets, mas sua mente voltava sempre ao mesmo ponto: o sorriso de Camila.
Perto do café instalado na feira, ele a viu novamente, agora sozinha, sentada, mexendo no celular, uma xícara à frente. O cabelo preso com a caneta de forma displicente deixava o rosto ainda mais bonito.
Ele hesitou por um instante, mas acabou se aproximando.

— “Oi. Posso me sentar?”
Ela levantou o olhar, e o sorriso veio fácil.
— “Claro! Achei que já tivesse fugido do evento”.
— “Pensei em fugir mesmo, mas me lembrei de que tínhamos uma conversa pendente”.
Ela riu. O som era o mesmo, leve, mas com uma pontinha de provocação.
— “Então quer dizer que eu deixei uma boa impressão?”
— “Digamos que sim, e também fiquei curioso.”
Camila apoiou o queixo na mão, observando-o.
— “Curioso é uma palavra perigosa. Já vi muita gente se perder por causa de curiosidade, sabia”.
— “Mas sem curiosidade, nada na vida acontece”.

— “Isso é verdade”. — Ela tomou um gole do café, os olhos ainda fixos nele. — “Às vezes, a curiosidade é o começo das coisas interessantes”.
Houve uma pausa curta, mas carregada. Rafael percebeu que, com Camila, o silêncio não era vazio; era um território compartilhado, onde cada olhar valia uma frase.
Falaram de trabalho, viagens, gostos triviais, mas mesmo o banal parecia ganhar outra textura. Camila tinha o dom de tornar qualquer assunto levemente insinuante, sem esforço.
— “Você é alguém que observa mais do que fala, não é?” — ela comentou.
— “Depende do que se tem pra ser observando”.
— “E o que está observando agora?”
Rafael sorriu, evitando responder diretamente.
— “Uma mulher que parece gostar de testar o limite das palavras.”

Camila riu de novo, dessa vez um pouco mais baixo.
— “Talvez. Ou talvez eu só goste de ver quem tem coragem de ir além delas”.
O clima ficou suspenso por um instante. Ele percebeu o olhar dela, não era o de quem provoca por vaidade, mas por instinto. Um tipo de confiança que não se explica, apenas se sente.
Antes que o momento se estendesse demais, ela levantou-se.

— “Preciso voltar para o estande. Mas se pudesse passaria o resto do dia aqui. Sempre aparecem pessoas curiosas…”
Ela o olhou mais uma vez, e saiu, deixando atrás de si uma sensação estranha, algo entre admiração, excitação, expectativa e frustração até.

–“Te pago um café no final do dia”. Ele disse tentando não perder o vínculo com ela.
E ficou ali, tentando entender o que exatamente o atraía tanto naquela mulher. Não era só beleza. Era algo mais… uma autoconfiança que ele ainda não compreendia, mas que o provocava profundamente.
O evento estava quase terminando quando Rafael a viu novamente. O movimento já era menor, e o som das conversas ecoava mais espaçado. Camila guardava em caixas alguns materiais no balcão quando ele se aproximou, sorrindo.

— “Pensei que já tivesse ido embora” — ela disse, surpresa.
— “Fui. Mas voltei. Fiquei te devendo um café, lembra.”
Ela ergueu as sobrancelhas, divertida.
— “Um homem de palavra… gosto disso”.
Minutos depois, já estavam no lounge do hotel, com copos nas mãos e o barulho de conversas suaves ao redor. A luz era baixa, o clima ameno. Havia uma intimidade discreta entre eles, daquelas que não precisam ser forçadas.
Conversaram sobre trabalho, rotina, viagens, até que, num momento de pausa, Rafael perguntou:
— “Você mencionou hoje cedo que aprendeu a gostar das pessoas quando são interessantes. Já conheceu muitas assim?”

Camila suspirou e sorriu, um sorriso que parecia guardar lembranças.
— “Algumas. E uma delas foi meu ex-marido, acredita”.
— “Ah, você foi casada?” — ele perguntou, com genuína curiosidade.
— “Fui. Por oito anos”.
Rafael recostou-se no ombro do assento, atento.
— “E o que aconteceu, pra não estarem mais juntos?”
— “Incompatibilidades”, — ela respondeu, simples. — “Daquelas que a gente finge que não existem até que crescem demais”.

Houve uma pausa curta, e ela completou, olhando para o copo:
— “Mas não foi um casamento ruim sabe. Na verdade, foi o melhor que poderia ter sido”.
— “Verdade? Difícil encontrar alguém que fale bem de seus relacionamentos passados. E o que fazia dele bom?”
Camila sorriu de canto, sem pressa.

— “Ele me compreendia. É isso. Isso foi o melhor que tivemos.”
Rafael arqueou uma sobrancelha.
— “Compreendia em que sentido, já que não estão mais juntos?”
Ela o fitou por alguns segundos antes de responder.
— “No sentido de que eu era… diferente. No sentido de que eu gostava de certas coisas que a maioria das pessoas não entendem. E ele não apenas entendia — ele compartilhava comigo”.
Rafael inclinou-se um pouco mais para frente, intrigado.
— “Está falando de algo específico?”

Camila apoiou os cotovelos na mesa e cruzou os dedos, observando-o com serenidade.
— “Sim. Eu era — e ainda sou — o que chamam de hotwife”.
Rafael piscou, sem esconder a surpresa.
— “Hotwife?”
Ela manteve o olhar firme, sem constrangimento.
— É, soa estranho quando se ouve pela primeira vez, não é?
Ele riu, mais de ignorância do que de desconcerto.
–“E o que seria uma Hotwife?”

Camila deu um gole na bebida, e então, com a voz baixa, explicou:
— “É basicamente uma mulher casada que, com o consentimento do marido, se relaciona com outros homens. Mas não é o que as pessoas pensam, não é promiscuidade, é algo… construído, consciente. Um jogo entre desejo e confiança.”

— Digamos que nunca ouvi de alguém que dissesse isso com tanta naturalidade. E ele aceitava isso normalmente?
— “Mais do que aceitava. Ele gostava de me ver desejada. Acho que isso fazia parte da conexão que tínhamos.”
Ela fez uma pausa, o olhar distante.

— “Foi intenso. E, de certa forma, bonito. Mas acabou. A vida muda, as pessoas mudam. Só que… às vezes sinto falta. Não só do que fazíamos, mas também do que sentíamos”.
Rafael estava completamente imerso no que Camila dizia.
— E você nunca mais encontrou alguém que entendesse isso?
Camila suspirou, um sorriso leve, mas triste.
— “Não. A maioria se assusta, ou julga, muitos querem aproveitar pra ter o sexo tão sonhado, com todo mundo, de todo jeito. Poucos entendem o que há por trás desse sentimento.”
O olhar dele se fixou no dela, não de julgamento, mas de fascínio.
— “Então me explica. Me deixa entender”.

Ela o observou em silêncio, avaliando, e o canto da boca se curvou lentamente.
— “Certo…, mas pra entender de verdade, vai precisar ouvir com a mente aberta”.
Rafael assentiu, e ali, naquele instante, ele sabia que algo estava prestes a mudar, que aquela conversa o levaria para um lugar onde talvez nunca tivesse imaginado ir.
Ele, ainda mais inclinado para frente, sem perceber, pergunta com voz baixa, não de quem julga, mas de quem quer realmente entender:

— “E como era isso… vocês?”
Ela o encara, firme, medindo se deve continuar. Há um brilho no olhar, mistura de saudade e prazer ao se lembrar.
— “Era libertador. Eu me sentia viva, desejada. Ele também gostava de me ver assim. A gente se completava nisso sabe”.
Ele traga o ar, como se o relato dela acendesse algo nele.
— “E você… saia com outros homens?” — pergunta, quase sussurrando.
Ela sorri.
— “Com outros? Sim. Mas era sempre nosso. Tudo era conversado, consentido, vivido com intensidade. Ele me via… e eu fazia pra ele, pra nós na verdade”.
O silêncio pesa. Só o som distante dos aparelhos da academia do hotel e o ritmo acelerado da respiração dele preenchem o espaço.

— “E agora?” — ele ousa. — “Nunca mais viveu isso?”
— “Não. Depois que terminamos, até tentei, mas… ninguém entendia. Ou me julgavam, ou queriam me usar. — Ela passa a mão no cabelo devagar, e o encara com calma. — “Poucos homens sabem lidar com o que dizem querer.”
Ele desvia o olhar, tentando disfarçar o quanto aquilo o afetou. O corpo responde antes da razão: sente o mesmo desejo que as palavras dela parecem despertar nela própria.
— “Acho que eu entenderia” — ele arrisca, num tom que soa entre provocação, verdade e receio.
Ela sorri de leve, sem confirmar nem negar.

— “Todos dizem isso no começo… todos” — repetiu Kátia, com um sorriso quase irônico, os olhos presos nos dele. — “Mas quando percebem o que significa, recuam”.
Ele se inclina um pouco mais, demonstra interesse, o olhar firme, curioso.
— “Então me explica”.
Ela respira fundo. Passa os dedos pelos cabelos mais uma
vez, como quem busca coragem.
— “Está mesmo disposto a ouvir?” — pergunta, em tom
baixo, quase desafiador.
— “Estou”. — A resposta vem rápida, quase instintiva.
Ela observa o rosto dele por alguns segundos antes de começar.

— “Uma vez, foi num hotel. Eu e meu marido tínhamos combinado com um homem que conhecemos num bar. Ele gostava de me ver… de estar ali, entende?” — Ela pausa, medindo cada palavra. — “E eu gostava de ser vista. Era uma mistura de nervosismo e prazer. No começo, tremia. Mas quando percebia o olhar dele, tudo fazia sentido.”
Rafael engole seco, o corpo reagindo ao tom confessional dela.

— “E o outro homem?” — pergunta, com a voz rouca.
— “Era diferentes. Cada um tinha um jeito. Uns eram mais gentis, outros queriam me dominar. Eu me deixava levar… até o ponto em que meu marido intervinha. Às vezes ele assistia de perto, às vezes me ligava só pra ouvir.”
Ela diz isso com naturalidade, mas sem vulgaridade, como quem fala de uma lembrança que ainda pulsa, mas já foi digerida.

Ele passa a mão na nuca, tentando esconder o arrepio que percorre o corpo.
— “E você gostava?” — pergunta, hesitante, como se não quisesse que ela notasse o quanto estava excitado.
Camila ri baixinho.
— “Se eu gostava? Eu vivia aquilo. Não era só sexo. Era entrega, confiança. A sensação de estar no limite e ainda assim segura… não só porque ele estava ali, mas por que eu me sentia poderosa, era a dona da situação, tudo girava em torno de mim.”
Ela o encara, séria agora:
— “É disso que eu falo quando digo que poucos entendem. Muitos se excitam, mas poucos conseguem se sustentar nisso”.
Ela se inclina um pouco para frente, a voz quase um sussurro:
— “Você conseguiria?”
O coração dele dispara. Não sabe se a pergunta é um teste, uma provocação ou um convite. Mas sente, com uma clareza que o assusta, que a partir dali nada entre eles será igual.
Camila o observava com calma, percebendo o conflito que se formava por trás do olhar dele, uma mistura de curiosidade, desejo e incredulidade.
— “Quer que te conte outra aventura?” — ela pergunta, inclinando a cabeça, como quem propõe um jogo.
Ele sorri de leve, meio sem jeito.
— “Claro… Se quiser contar…”
— “Eu quero” — responde ela, firme, os olhos brilhando. — “Foi numa viagem a trabalho. Eu e meu marido estávamos em cidades diferentes, e ele me mandou uma mensagem: “quero que saia pra jantar com alguém e me conte tudo depois”. Achei que fosse brincadeira… até que percebi que ele queria exatamente isso”.
Ela faz uma pausa, lembrando.
— “Escolhi um restaurante qualquer. Um cara puxou conversa, e eu deixei fluir. Falamos de tudo, menos do que realmente importava. Quando ele me convidou pra subir ao seu quarto, hesitei…, mas aí pensei no que meu marido sentiria ao saber. Entrei no elevador tremendo e fui.”
Rafael a ouvia imóvel, como se cada palavra o prendesse mais.
— “No quarto, ele foi direto. Me devorava. Eu tentava disfarçar o nervosismo, mas ao mesmo tempo sentia algo novo, excitante… como se aquela liberdade proibida me deixasse ainda mais viva. Depois, contei tudo pro meu marido. Detalhe por detalhe. Ele ficou em silêncio por um tempo, e então me agradeceu. Disse que nunca tinha sentido tanto tesão por mim quanto naquela noite.”
Ela termina o relato sem pressa, com uma naturalidade espantosa, bebendo um gole de vinho.
Ele se recosta na cadeira, respirando fundo.
— “Isso… É intenso”.
Camila sorri de canto.
— “É real. Era o jeito que tínhamos de nos manter próximos, mesmo na distância.”
— “E você ainda vive assim?” — ele pergunta, a voz rouca.
— “Vivo. Mas agora por mim. Não preciso de alguém que me “autorize” fazer o que quero. Apenas alguém que me entenda e aceite”.
Ele hesita, mas os olhos não mentem.
— “Acho que começo a te entender.”
— “Entende mesmo?” — ela provoca, erguendo uma sobrancelha. — “Porque a maioria só diz isso pra me agradar ou viver uma aventura dessas comigo e depois somem”.
Ele respira fundo, encara-a por um instante.
— “Não sei se entendo tudo. Mas sei que o que você contou me fez pensar em como seria viver isso, me fez imaginar. E se imaginei… talvez eu não ache tão absurdo assim. Entenda, eu imaginei como seria viver isso e não te julguei por você viver isso”.
Ela sorri, satisfeita com a resposta, e o silêncio que segue tem algo elétrico, quase palpável. Os dois se olham como quem pressente que o próximo movimento já pode ser dado, o tabuleiro são as revelações, e as peças estão sentadas uma de frente a outra naquele bar.
Camila percebeu o modo como ele a olhava, não era mais mera curiosidade. Havia algo de faminto, um fascínio novo que ela conhecia bem. Era o mesmo brilho que via em certos homens quando se permitiam imaginar o que nunca ousaram viver. Pousou a taça na mesa devagar, aproximou-se um pouco mais e perguntou, em tom quase confidencial:
— “Você realmente acha que entenderia esse jeito de viver, se se envolvesse com alguém como eu, Lucas?”
Ele hesitou.
— “Acho que… entender talvez não seja a palavra. Mas eu quero conhecer, por que não? Quero conhecer como isso funciona e por que te fascina tanto”.
Ela sorriu.
— “Então me diz… você sendo meu namorado, conseguiria me ouvir descrevendo uma transa minha com outro homem? O que faria se eu me deixasse levar pelo flerte de outro estando na sua companhia?”
Ele ficou em silêncio. Podia sentir o coração acelerar, as palavras presas na garganta. Um sinal de excitação entre as calças. Camila o estudava com calma, como quem mede até onde pode ir.
— “Não sei” — admitiu. — “Talvez sim. Mas não tenho certeza”.
— “Posso testar?” — ela perguntou, com aquela naturalidade que desarmava.
Lucas respirou fundo.
— “Testar como?”
— “Vou te contar algo meu” — respondeu ela, o olhar fixo no dele. — “E quero que imagine. Só isso. Não precisa dizer nada, só sinta. E depois me diz o que aconteceu com você”
Ele engoliu em seco.
— “E se eu não conseguir?”
— “Aí eu paro, e vou entender que meu mundo não é pra você. Ou talvez eu continue, pra ver até onde você aguenta ouvir me expondo” — disse, e seu sorriso agora tinha algo de provocante, mas também de afeto. — Não é sobre sexo, é sobre o que desperta em você aquilo que te faz perder o controle, é sobre o que te tira do eixo e te excita, é sobre estar num lugar que você jamais imaginou que estaria e gostar disso, ou não”.
As palavras dela pairaram no ar como um perfume quente. A inquietação e excitação de Lucas eram evidentes, ele percebeu que, mais do que curiosidade, sentia uma atração pelo que aquilo representava, um tipo de entrega diferente, onde o controle e a rendição se misturavam.
— “Tente” — respondeu enfim, quase num sussurro.
Camila assentiu, satisfeita.
— “Certo. Mas lembre-se, eu só descrevo. Você imagina”. Ela fez uma pausa, medindo o silêncio. — “E a partir daqui, pra você, nada será igual”.
Camila manteve o olhar firme em Lucas, como quem segura uma corda invisível entre os dois.
— “Quando eu era casada, havia algo entre eu e meu marido que ninguém entenderia estando de fora” — começou, a voz baixa, quase hipnótica. — “Ele adorava me ver livre. Livre de verdade. E eu… descobri que gostava de ser vista assim”.
Lucas ouviu em silêncio, o corpo inteiro atento.
— “Às vezes eu voltava pra casa depois de uma noite com algum cara, e ele me esperava. Eu contava tudo. Contava cada detalhe que ele pedia”. — Ela fez uma pausa, o olhar perdido em lembranças. — “Quem era o cara, como era, o que fez comigo, se eu gozei, onde ele gozou, era a forma dele me ter por inteira através daquilo que eu vivia, já que nos outros pontos, nossa vida já não era mais a mesma”.
Lucas não respondeu. Havia um nó em sua garganta.
— “Ele dizia que o desejo estava em imaginar” — continuou Camila. — “Que o mais excitante não era o que eu fazia, mas o que ele pensava que eu fazia.”
Ela se inclinou um pouco mais, o rosto a poucos centímetros do dele.
— “E agora, te pergunto, Lucas… o que você sente ao me ouvir contar tudo isso?”
Ele hesitou, respirando fundo, sem coragem de admitir o tesão que o tomava.
— “Não sei explicar” — disse, num tom rouco. — É como se eu estivesse ali com você”.
Camila sorriu de leve, satisfeita.
— “Então talvez você entenda mais do que imagina”.
Por um instante, o tempo pareceu parar entre eles. Nenhum dos dois se moveu. Apenas o som das respirações, o peso das palavras, e o desejo não dito pairando como algo palpável.
Ela o observava com atenção, estudando suas reações.
— “Quer saber o que era o mais intenso?” — perguntou. — “Não era o que acontecia comigo e outros homens… era o depois. Quando tudo voltava ao silêncio, e ainda assim ele me queria mais, era quase que uma veneração de sua parte. Quanto mais eu me doava pra outro, mais ele demonstrava que me queria.”
Lucas sentiu o impacto da frase. Havia algo naquilo, uma entrega que misturava posse e rendição, que o atraía e o confundia ao mesmo tempo.
Camila, percebendo o efeito, recostou-se na cadeira e
concluiu com um tom mais baixo:
— “Às vezes o prazer não está em tocar, em ter nas
mãos…, mas só imaginar”.
Ela manteve o olhar em Lucas por longos segundos, como
se pesasse cada respiração dele.
— “Às vezes” — disse, com voz baixa —, “o desejo está
em imaginar o impossível”.
Ele esperou que ela continuasse, mas o silêncio que se formou era um convite.
— “O que seria o impossível pra você?” — perguntou, sem disfarçar a curiosidade.
Camila cruzou as pernas lentamente, os olhos ainda fixos nos dele.
— “O impossível é o que a maioria não admite desejar. É ver, sentir, mas não possuir. É ter prazer mesmo quando o controle escapa. Pra mim o impossível atualmente é ter o que a maioria das pessoas julgam sem conhecer, e muitas vezes até conhecem, mas a hipocrisia não os permite assumir a atração que sentem”.
Lucas engoliu seco. O corpo respondeu antes da mente.
— “Pois é, entendo você. E você… já viveu isso, sabe do que está falando”.
Ela inclinou a cabeça, um meio sorriso surgindo nos lábios.
— “Já vivi o suficiente pra saber que o que mais excita é o que não se pode ter”. — Fez uma pausa. — “E você, Lucas? Consegue imaginar-se apenas observando, sem ter, sem tocar?”
Ele franziu a testa, tentando entender até onde ela queria chegar.
— “Ficar só observando?”
— “Sim. Só observando, o que quiser” — disse, com calma. — “observando aquilo que o instiga, mas que você não teria coragem de pedir.”
Ela se aproximou mais, o perfume quente se misturando ao ar.
— “Posso te contar uma fantasia minha?”
Ele assentiu, quase sem voz.
— “Fantasio com o excesso” — confessou. — “Com o limite entre o querer e o perder. Tudo em mim não é pouco, aliás, o morno me dá nojo. Sou gelado ou fervente, nunca meio termo.”
Lucas respirou fundo, sentindo o chão mover-se sob os pés.
— “E o que você acha que eu faria nesse seu cenário?” — perguntou, num tom entre desafiador e entregue.
Camila sorriu.
— “É isso que quero descobrir. Se você suportaria ver sua mulher com outro e ainda assim quere-la”.
O olhar dele era um misto de confusão e fascínio.
Ela percebeu, e a voz ganhou uma nota quase sussurrada:
— “A questão não é se você deixaria. É se você aguentaria”.
O ar entre eles ficou denso, quase palpável.
Lucas desviou o olhar, tentando recompor o raciocínio, mas as palavras dela ecoavam nele como uma promessa.
Camila então se recostou, relaxada, como se o jogo estivesse apenas começando.
— “Às vezes” — disse por fim —, “é assim que tudo começa: com uma pergunta que a gente não consegue responder e que fica martelando no fundo da mente”.
A noite já tinha avançado quando Lucas voltou pra casa. O som do trânsito parecia distante, abafado pelo turbilhão de pensamentos que ainda ecoavam em sua cabeça.
Camila havia deixado algo no ar, algo que não se dissipava. Cada frase, cada olhar, cada pausa de ela fizera, parecia ter um significado escondido.
Ele se jogou no sofá, ainda vestido, e fechou os olhos. Bastou isso para que as imagens surgissem sozinhas. Camila, falando baixo, o provocando com a calma de quem conhece o poder da própria voz. As palavras dela voltavam como ecos, transformando-se em cenas que ele não controlava mais.
Imaginava-a envolta naquele mistério, os gestos lentos, o olhar convidando e desafiando ao mesmo tempo.
Não era apenas o corpo dela que o excitava, era o poder que ela tinha de mexer em sua imaginação, com tão pouco.
Se pegou sorrindo, sentindo um calor subir pelo corpo, como se estivesse vivendo o que só deveria estar imaginando. Por um instante, teve vontade de se censurar. Mas logo percebeu que não adiantaria, seu tesão já falava mais alto e forte ali.
Camila o fizera atravessar um limite silencioso, e o mais perturbador é que ele gostara.
Pegou o celular. A tela piscava com notificações banais, mas ele não pensou duas vezes. Abriu a conversa dela e digitou devagar:
–“Acho que não terminei de te ouvir. Quando podemos continuar?”
A resposta veio alguns minutos depois.
–“Depende. Você está pronto pra não apenas ouvir?”
Lucas encarou a mensagem por alguns segundos, o coração acelerado. Então respondeu:
–“Acho que nunca estive tão pronto.”
Largou o celular no sofá, respirou fundo e fechou os olhos.
As imagens voltaram mais intensas. E ele entendeu, sem precisar dizer em voz alta: o jogo tinha começado.
O bar era pequeno, discreto, iluminado por luzes amareladas que tornavam tudo mais íntimo do que deveria ser. Camila chegou primeiro. Lucas a encontrou sentada junto ao balcão, um copo nas mãos e aquele mesmo ar tranquilo, como se nunca houvesse pressa para nada.
— “Achei que você não viria” — disse ela, sem desviar o olhar do copo.
— “Por que recusaria um convite desses?” — respondeu ele, tentando soar seguro.
Ela sorriu de leve.
— “O medo acompanha as pessoas sempre. Nem todo mundo entende que está sendo convidado a viver”.
Ficaram um tempo em silêncio, observando o movimento ao redor. Era um bar comum, gente rindo, música suave, casais trocando olhares. Ainda assim, havia algo diferente no ar.
Camila apoiou o cotovelo no balcão, virando-se para ele.
— “Sabe, Lucas… às vezes o que mais me atrai é ver o desejo nascendo diante de mim. Não precisa ser meu. Ele só precisa existir.”
Ela olhou discretamente para o homem na outra ponta do balcão. Um gesto quase imperceptível, um sorriso breve. O homem correspondeu com um aceno contido.
Lucas percebeu, e o estômago pareceu dar um nó.
Ela se virou de volta, mantendo o mesmo tom sereno:
— “É assim que tudo começa. Um olhar. Um gesto simples. A vontade de ir além, fica no ar, basta um bom entendedor”.
Ele a olhava em silêncio, incapaz de esconder a mistura de fascínio, tesão e desconforto que lhe instalava.
— “É isso que te excita? O jogo de poder? De saber que te desejam?” — perguntou, a voz mais baixa do que pretendia.
— “Não exatamente” — respondeu ela. — “O que me excita é ser eu mesma, sem precisar esconder o que sou. Sem precisar pedir permissão, e ver quem fica. Ver quem realmente fica por mim, não pelo que eu posso oferecer”.
Ela se aproximou um pouco mais dele, o perfume e a voz se misturando.
— “Quando eu era casada, ele entendia isso. Não me prendia, me deixava ser quem eu era. E é por isso que eu o respeitava tanto”.
Camila pousou a mão sobre a de Lucas, com calma.
— “E você, Lucas… seria capaz de ter uma mulher assim? Uma mulher que é só sua e também de outros quando quer?”
Ele sentiu a pergunta atravessá-lo como uma facada no peito. Não havia resposta fácil — apenas o som do bar, o olhar dela, e a sensação de que já não havia retorno, ele quis estar ali, haveria de enfrentar perguntas desconcertantes.
Ela levantou-se, pegou a bolsa e, antes de afastar-se, inclinou-se junto ao ouvido dele.
— “A pergunta é simples” — sussurrou. — “Você seria forte o bastante pra ter uma mulher puta como eu?”
E foi embora, deixando o copo vazio, o perfume suspenso no ar e um homem imóvel, preso entre o desejo e o abismo.

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